domingo, 24 de novembro de 2013

Estou pouco me importando...

Pouco importa

"Analfabeta que sou
Não diferencio poema de poesia
Rima de metonímia
Rolha de vinho
da cortiça de Portugal
Mesmo assim, me chama
a elegante e fina caneta
e papel

Transparente e firme
Chama a caneta
Com essa voz de canto de chuva ao cair no chão
molhado, frio e lindo

Que notas são?
Em vão as notas,
vão-se as notas...
A voz feminina da caneta convida para uma festa
Caneta fina, elegante, de voz firme, confiante
O sangue marca o convite
A marca da caneta pouco importa,
se importa ou falsifica

Ah!
O convite, o vinho...
Foi-se a rolha sem gosto, mais uma rolha, e outra, mais uma taça e outra...
Com o gosto da rolha... Da rolha que partiu

Se a rolha é da cortiça portuguesa, pouco importa se o vinho é do pobre ou da burguesa.

Que tenha gosto de rolha!
Se a rolha é da cortiça portuguesa,
pouco importa a caneta,
se de sangue tinto
ou de tinta fresca."

sábado, 23 de novembro de 2013

Sobre a felicidade


"Na ânsia de se isentarem de suas responsabilidades sociais,
alguns indivíduos afirmam categoricamente que a felicidade depende só de mim,
depois, acusam-me de individualista.

Quando sorrio enquanto o outro morre de fome, sou egoísta e insensível. A hipocrisia nunca doou sorriso nem ao menos ninharia. Eu tenho a consciência tranquila quanto a isso.
A felicidade depende de mim, do outro, dos fenômenos da natureza e de alguns outros adereços.
Tudo mais é alegria, e eu sou alegre, porque decido se vou sucumbir ou superar."

Madalena Daltro.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Sentimento de coisa

Sabe quando a gente é ex alguma coisa?

A gente já se deslumbrou, investigou, se encantou, conviveu, absorveu essa coisa, que por fim, nem era grande coisa.

Daí a gente vê no presente alguém se encantando e morrendo por essa coisa, então...
Isso desperta um sentimento que eu não sei o nome.

E a gente nem pode falar nada porque a pessoa está deslumbrada pela coisa em questão. E corre-se o risco da pessoa te olhar com ar de superioridade, porque o deslumbramento faz isso, e a gente se cala.

O que é essa coisa? Essa coisa pode ser carro, moto, bairro, ideologia política, religião, gente...

E a gente se cala em respeito a escolha da pessoa, mas fica com esse inominável sentimento. O sentimento de coisa.

Que coisa!

domingo, 17 de novembro de 2013

Metáfora

Metáfora
Gilberto Gil

"Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudo nada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora"