sexta-feira, 24 de abril de 2015

Crônica da Sirigaita

Sobre os produtos que provocaram uma revolução na vida das mulheres, arrisco afirmar que a Máquina de Lavar Roupas esteja presente em todas as listas.
A geladeira, o ferro elétrico, o fogão a gás e o micro-ondas também têm o seu lugar ao sol, mas a Máquina de Lavar é, para mim, a marca da emancipação.
Talvez seja porque eu cheguei a lavar muitas roupas no tanque, calça jeans com escova e sabão em barra...
Na minha casa havia um ferro à brasa, que era da minha avó, mas quando eu nasci, o ferro elétrico já era popular, diferente da máquina de lavar.
A minha mãe era costureira, e tinha uma máquina de costura, daquelas antigas, enormes, de pedal, mas tudo isso era tão comum como copo de requeijão ou de geleia de Mocotó Imbasa.
Nunca passou pela minha cabeça que a Máquina de Costura fora tão revolucionária quanto a Máquina de Lavar Roupas. Aliás, em muitas pesquisas ela nem entra na lista.
Os equipamentos são revolucionários conforme a época, só quem viveu sem, sabe dar o valor que tem.
Mas fazendo um retrocesso imaginário, de todos esses maquinários domésticos, eu não me vejo sem dois, as Máquinas de costurar e de lavar.
E foi Aluísio Azevedo quem me fez chegar a essa conclusão, no relato que faz na sua magnífica obra O Mulato. Eis o que diz:
“...- No seu tempo, dizia ela com azedume, as meninas tinham a sua tarefa de costura para tantas horas, a haviam de pôr pr’ali o trabalho! se o acabavam mais cedo, iam descansar?... Boas! desmanchavam, minha senhora! desmanchavam para fazer de novo!
E hoje?... perguntava, (...) – hoje é o maquiavelismo da máquina de costura!
Dá-se uma tarefa grande e é só “zuc-zuc-zuc!” e está pronto o serviço!
E daí, vai a sirigaita pôr-se de leitura nos jornais, tomar conta do romance ou então vai para a indecência do piano!
E jurava que filha sua não havia de aprender semelhante instrumento, porque as desavergonhadas só queriam aquilo para melhor conversar com os namorados, sem que os outros dessem da patifaria!
Também dizia mal da iluminação à gás:...” Mas aqui não vou dizer a razão dela porque vale a pena ler ou reler essa obra primorosa.
Imagina não poder ler por falta de tempo!
Consegue imaginar isso?
Que ironia...
Tempo é uma questão de prioridade, mas parece que já nascemos com as prioridades estabelecidas... Ok, mas temos as máquinas, então, vamos aos livros e as indecências dos pianos! E sejamos todas sirigaitas.

- Madalena Daltro.
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sábado, 11 de abril de 2015

Uma questão de direito


"'tudo o que disseres,
pode e será usado'
a meu favor no tribunal da vida.

Todo e qualquer insulto
ou assédio moral que eu vir a sofrer,
pode,
e será usado,
como entulho
para nivelar o terreno
antes de erguer uma obra.

De alguma forma,
o que me disseres
será alicerce
da construção
que abrigará
as tuas vítimas."

- Madalena Daltro.

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quinta-feira, 9 de abril de 2015

"- Eu não sirvo pra nada!"


Então quando se diz, enfaticamente:

-Eu não sirvo pra nada!

O que quer essa sentença dizer?

Que estamos aqui para servir,
ser útil a algo,
ou a alguém.

O ser
quer
ser útil.

A vida só faz sentido com o reconhecimento de sua utilidade.
Útil na fé, no amor, na força de vontade...

Um ser sem utilidade torna-se pernicioso, amargo, autodestrutivo...
Porque ele sente necessidade de fazer algo.
E se não constrói,
enferruja
e destrói...

Quando um povo diz
que quer emprego,
o governo deveria se ajoelhar diante dele.

- Madalena Daltro

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sábado, 4 de abril de 2015

Mostra de Contradição

"Essa tragédia que é a miséria humana
só não me escandaliza mais
do que essa minha irracional
vontade de viver, e assim,
nessa miséria permanecer.

Por essa mostra de contradição
meço a minha mediocridade."

- Madalena Daltro.