terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quem é peão nunca perde a dignidade...

"Examinando a minha miséria
Sinto a minha ingratidão
Vasculhando a ingratidão
vejo que a fome alheia
impede-me de ser feliz.
Então, não mais me vejo miserável
ou ingrata...

Vejo-me impotente,
mas quem é peão,
nunca perde a dignidade.
Estendo a mão a mão que me apunhala
Aceno a mão a mão que me açoita
Beijo a mão que está próxima a boca
a estrangular-me."

- Madalena Daltro

terça-feira, 15 de julho de 2014

Monólogo poético

Na porta da capela
Numa rua de pedra
Em Paracatu
Ela acendia uma vela
E entregava seu coração duro
Em troca de um coração de carne
Cheio de virtudes, amor e mansidão.

E eu?
Eu de tanto ver meu coração sangrar
Esfaqueado pelo desprezo,
Cravado de balas metralhadas pelos olhares mesquinhos
queria dela, com toda ânsia e desejo da minha alma
aquele coração de pedra.
Um coração de pedra era tudo o que eu queria
e precisava para sobreviver,
para não falecer em hemorragia.

Mas não tinha a tal vela, para fazer o pedido.
Meu coração ingênuo sempre andava desprevenido
Nunca tinha velas, nem barcos, ou ancoradouros
Andava descalço, exposto às ventanias e às flechadas dos cupidos.
Sua carne dilacerada sobrevivia sangrando,
Minando artéria, alma e ventrículos.

Queria propor uma troca.
Mas como trocar com ela,
se nem olhava pra mim?
Nem imaginava que invejava nela
Aquele coração impávido, de pedra polida
Sem pontas, sangue ou cicatrizes. Nada!
Apenas mineral, que ela queria despedir.
E eu com tantas despedidas
que deixaram o meu coração esburacado
queria apenas um coração novo, duro como as rochas
Para suportar as novas facadas.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Versos

"Verso versátil
que versa
o avesso do eu
perverso, em verbo
pervertido pelos
versos do universo
que habito, ao avesso
dos seus versos certos."

Madalena Daltro.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Propriedade, trabalho, valores...

Não importa que a terra não seja minha,
eu quero é semear,
porque no mundo há os que nascem erva daninha
e não saem do lugar,
mas há os que nascem passarinhos,
e semeando voam além mar.

Madalena Daltro

domingo, 15 de junho de 2014

Segunda-feira

Amanhã é segunda-feira
para uns dia de recomeço
milhares sairão cedo
distribuirão currículos
procurando emprego
alguns irão otimistas,
outros cansados, irão apáticos
movidos pela esperança
de quem quer trabalho.

Amanhã é segunda-feira
para outros dia de tortura
milhares sairão cedo
para o trabalho,
é um martírio o baixo salário
uma angústia suportar
o chefe salafrário,
a tudo suportam,
pois a tudo sustentam
da família ao erário.

Amanhã é segunda-feira
para alguns dia de alegria
milhares sairão cedo
será o primeiro dia
no emprego.

Como todos os dias e também na segunda-feira
pessoas sairão com vida
e com vida retornarão,
infelizmente,
outros não.

Amanhã é segunda-feira
pode ser a primeira
a ser vivida como se fosse
da vida, o último dia,
tendo ou não um emprego
amanhã é segunda-feira.
Encare-a!

Madalena Daltro


sábado, 7 de junho de 2014

A Fita Métrica


"A fita métrica
mediou
minha medida
pela medida de quem
nem me viu.

Ou ouviu,
nem eu o vi!
Ou ouvi dizer.

Nem sei quem foi
que deu medida,
à fita métrica
que me mediu.

Assim sou medida
pela medida
da fita criada
por quem
não conheceu
a minha medida."

Madalena Daltro

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu


"Eu faço coisas
Indizíveis
Eu digo coisas
Impraticáveis
Mas assumo as minhas
Insanidades

Eu como coisas
Intragáveis
Eu trago coisas
Indispensáveis
Sou gente, humano, homem,
Mas somos
Incomparáveis

Eu tenho sonhos
Impossíveis
Eu sofro de
Infidelidades
Meu coração
Interditado
Vive na
Impessoalidade.

Eu tenho muita
Incapacidade
Eu existo na
Invisibilidade
Escrevendo palavras
Impublicáveis
Vivo como réu
Indiciado.
Mas assumo as minhas
Indignidades."

Madalena Daltro

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Salta aos olhos...

"Salta aos olhos
saltitantes
aquela mulher sem salto.
Solta ao vento,
os cabelos soltos
voam
tranquilos,
sem sobressaltos.
Seu passo
salta
remexe o corpo
livre.
Solto da desconfiança
dos assaltantes
que assaltam
a todo instante
o sorriso solto
nos lábios cintilantes."

Madalena Daltro.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Persistência

"O que evita a depressão é a lágrima solta,
o choro preso aniquila e mata.
Chorar quando for preciso é prova de resistência,
não é eternamente que se chora,
ser feliz, é questão de persistência."

Madalena Daltro.

sábado, 8 de março de 2014

Ame-se mulher!

"... Mulher é a parte mais bela
da história da humanidade,
o mais requintado lado
da simplicidade.

Mulher! És linda!
Nos dramas.
na lida,
nas manhas
na neurastenia.
De cara lavada,
de brinco de pedra,
cabelo amarrado,
como é bela!
Colar de pérolas
cor do coral,
perfume de flor e
creme dental.
Simples, é erudita.

Dê a mulher um poema
e marque com ela um encontro
a poesia será a joia
que ela usará por dentro."

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Dica

"Antes de ler uma poesia
consulte o seu estado de espírito
se não estiver aberto,
fecha o livro"
Madalena Daltro.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Eu tão moleque

Os adultos são tão bem comportados
tão sérios
tão sabichões
tão, tão...
E eu?
Eu tão moleque

E eu tão moleque
achava que aos 25 seria adulta
aos 25 tão moleque
achava que aos 30 seria adulta
aos 30 tão moleque
vesti-me como adulta,
mas por dentro, descalço, sem camisa...
tão moleque...

Achei que aos 35 seria adulta
e aos 40 tão moleque
pensei em quem não teve infância
e descobri que
uns não têm infância
e outros não têm "adultez"

Olham-me como um ser estranho
e eu tão moleque
sigo em frente
deixei de sonhar
em ser comportada
fazer o quê com o meu eu tão moleque?

Eu tão moleque fui pra guerra
e tão moleque tornei-me soldado
eu tão moleque sou mais sério
que muito adulto comportado.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Assumindo a tristeza para ser feliz

Eu sou triste como sou morena.

A tristeza é um parasita imóvel
que tenta imobilizar o hospedeiro no chão.

Mas eu tenho uma força dentro de mim
que me mantém em movimento
e essa força
é maior que a inércia da minha tristeza

Eu sou triste como sou mulher
e como mulher não paro um minuto sequer

Eu sou triste como sou brasileira
sou rebelde, espontânea, explorada
batalhadora...

Eu sou triste como qualquer coisa não dá para mudar,
mas também sou resistente, e essa resistência
eu não troco por alegria nenhuma desse mundo
porque a minha resistência é permanente
e a alegria passageira...

A minha resistência me satisfaz
e isso me basta.

Quando assumi a minha tristeza eu passei a ser feliz.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

A Puta

A Puta não estava com esmalte vermelho
nem tinha uma unha do pé...

O cloro da faxina lavou
a casa da vizinha
que usava esmalte vermelho
e levou a unha da Puta

Era uma puta vizinha!
Com cara de santinha
e a Puta não tinha
dinheiro nem pra esmalte
nem pra faxina,
mal tinha pra comida.

A vizinha a chamava de Puta
por pura inveja
já que sua vagina
nem com faxina
dava alegria,
e a Puta só era puta
porque era amada pelo jardineiro
da vizinha
mesquinha e desesperada
por oscilar entre ser encalhada e mal amada.

Se a Vizinha aprender a ser puta como a Puta
'estaria finda a putaria'.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Introspectiva...

>



"...quando corro vejo arte em toda parte..."